terça-feira, 19 de março de 2013

HOLOCAUSTO A TRILHA DA MORTE


Westerborkpad: A trilha entre Amsterdã e o Campo Westerbork – Seguindo os passos do Holocausto

Dezenas de milhares de judeus foram postos em vagões de carga lotados e deportados de Amsterdã para o Campo Westerbork, em Drenthe, entre 1940 e 1945. Atravessaram a Holanda de trem, ainda sem saber de sua morte iminente. Há pouco tempo foi criado neste trajeto a Westerborkpad, uma trilha para caminhada de 336 quilômetros ao longo de esconderijos, cemitérios e memoriais.
 
A Westerborkpad foi uma iniciativa de Jan Dokter, de 75 anos, que é metade judeu. Durante a Segunda Guerra Mundial, doze pessoas de sua família foram levadas ao campo de trânsito de Westerbork e depois assassinadas pelos alemães nos campos de concentração de Auschwitz e Sobibor. Durante muitos anos Jan não quis saber sobre a guerra. Era muito difícil.


Podcast sobre a trilha Westerborkpad – duração 05:43
Memória
Foi só em 2005, quando o ex-primeiro-ministro Jan Peter Balkenende fez um pedido para que as pessoas registrassem suas memórias da guerra, que Jan se sentiu chamado a abordar o assunto. Como praticante de caminhadas de longa distância, ele quis andar de Amsterdã até o Campo Westerbork, o mais próximo possível da estrada de ferro pela qual seu avô, tios, tias, primos e primas foram transportados. Foi uma jornada de reflexão. “Durante a caminhada estive com eles constantemente em meus pensamentos”, conta.
 Encontrei Jan Dokter em frente à Estação Central de Amsterdã, onde tem início o prólogo da Westerborkpad. Caminhamos, passando pelo Museu Casa de Anne Frank, até o Monumento de Auschwitz em direção ao teatro Hollandsche Schouwburg. No meio do caminho Jan entrou no Arquivo Municipal. Ali, até o fim de maio, há uma exposição com fotos de tres mil crianças que morreram durante a guerra.
Fileiras de fotos
Entre as fileiras de fotografias, encontramos a foto de uma prima de Jan Dokter. Elisabeth Abigail Pakkedrager. O nome aparece embaixo da foto de uma menina com um arquinho na cabeça. Nascida em 1939. “Nunca a conheci, mas se tivesse sobrevivido, eu a teria conhecido. Ela morreu em Sobibor…” Jan engole seco e fica em silêncio. A emoção é muita. Depois ele conta que as crianças eram imediatamente levadas à câmara de gás, assim que chegavam a Sobibor.
Logo depois chegamos ao Hollandsche Schouwburg. Ali era reunida a maioria dos judeus antes de serem levados a Westerbork. Durante a guerra, o local chamado de ‘Teatro Judeu’, porque apenas artistas judeus podiam se apresentar para um público judeu. Hoje é um memorial. “À esquerda, naquela placa grande, estão todos os nomes de famílias judias que morreram na guerra. Minha família também”, diz Jan Dokter, apontando para o nome Pakkedrager.

Pátio da espera
Na parte de trás do prédio há um pátio interno onde as pessoas esperavam por sua deportação. “Para os judeus que vêm aqui este é o principal lugar para visitar”, comenta Jan Dokter. “A partir daqui seus familiares seus familiares tinham que caminhar, em fila, e sob forte vigilância, até a Estação Muiderpoort, de onde os trens partiam.”
Me despeço de Jan Dokter e caminho até a Estação Muiderpoort. Lá eu encontro na praça do lado leste um monumento de aço inoxidável com o seguinte texto: ‘A partir desta estação, entre outubro de 1942 e 26 de maio de 1944, mais de 11 mil judeus foram levados ao campo de trânsito de Westerbork. A maioria foi assassinada em campos de extermínio na Europa Central.’ O texto está no meio da praça. Viajantes passam por ele sem prestar atenção, sem se dar conta do passado lúgubre desta estação.


Edith Nagel-Ossendrijver
Na estação de trem de Naarden-Bussum eu encontro Edith Nagel-Ossendrijver. É difícil imaginar que trens repletos de judeus deportados passavam por aqui em direção ao Campo Westerbork. Edith era uma menina durante a guerra, de origem judaica. Morava em Bussum. Quando as razias começaram em Amsterdã e os alemães passaram a levar pessoas para os campos de trabalho forçado na Alemanha, sua mãe decidiu buscar um esconderijo.
Durante três anos Edith não pôde sair. Era muito perigoso brincar lá fora. Só à noite, no escuro, ela podia de vez em quando dar uma volta ao ar livre. E dentro da casa também não era sempre seguro. Como quando um caminhão alemão parou em frente à casa.
Esconderijo
“Meus pais ‘postiços’, da família com a qual eu me escondia, tinham feito um esconderijo para mim dentro de um armário fundo. Corri para lá. Minha mãe ‘postiça’ tirou as prateleiras e roupas e depois recolocou. Logo em seguida pude ouvir os homens, com suas botas pesadas, subindo as escadas. Já era sabido que eles de vez em quando eles espetavam suas baionetas quando estavam procurando pessoas. Esperava a qualquer momento que uma baioneta me espetasse. Fiquei estupefata quando eles partiram. Eu ainda estava viva.
Edith Nagel-Ossendrijver conseguiu evitar o trem para Westerbork. Mais de 60 membros de sua família, entre os quais sua mãe e seu meio-irmão, não tiveram a mesma sorte. Morreram em Auschwitz ou Sobibor. “Minha mãe trabalhava para a resistência. Ela foi capturada e presa em Scheveningen e Haren. Depois ficou seis semanas desaparecida e ressurgiu em Westerbork. Foi levada a Auschwitz com o último trem. Triste, muito, muito triste.”
Cartas
Walter Nagel se mudou para Hilversum durante a guerra. Foi morar na casa de uma família judia que tinha sido presa. Ele ainda se lembra que estava esperando para cruzar a linha do trem quando um trem a vapor com uns dez vagões passou. Nas laterais do trem havia soldados armados.
Na hora em que o trem passou pelo cruzamento, uma ou outra janela se abriu e cartas foram jogadas pra fora. “Assim que o trem foi embora, fui pegar as cartas. Outras pessoas fizeram o mesmo. Aí chegou um colaboracionista, com seu uniforme preto e quepe vermelho. Ele exigiu em tom rude que entregássemos os bilhetes. Só muito mais tarde, depois da guerra, descobri que os judeus andavam sempre com envelopes franqueados no bolso para poder avisar seus entes queridos caso fossem pegos pelos alemães.”
Cemitério judaico
Continuo na Westerborkpad. Caminho por Bussum e chego a um cemitério judaico. O portão abre fazendo um barulho rascante. Sobre um caminho coberto de grama, ando até o final do cemitério, onde há um grande monumento de pedra, cercado de túmulos de judeus. Só os pássaros quebram o silêncio.
Em Hilversum tomo o trem e pulo uma parte da rota. Vou a Hoogalen. Até 1942 o trem para Westerbork parava ali. Os prisioneiros tinham que fazer os últimos quilômetros a pé. Mais tarde eles passaram ser transferidos para outro transporte a partir dali, e levados para campos de extermínio na Europa Central.
Em Hooghalen eu encontro Beater Plenter. Ela escreve com frequência sobre o período da guerra em sua cidade natal. Quando menina, Beate brincava nos canais ao longo da linha do trem. Ela não viu muitos dos ‘trens especiais’. “Imagino que nossos pais faziam de tudo para que não víssemos.”Exceto uma vez.

O transporte de Beate Plenter
“Eu estava brincando com uma amiguinha quando um transporte chegou.” Ela se lembra que um grande número de pessoas desceu do trem. Centenas. “Uma mulher com duas crianças pequenas vinha na frente. Só mais tarde me dei conta de que eu era uma criança feliz, mas crianças que estavam a alguns quilômetros de distância estavam em perigo.”
À noite, na cama, Beate via as luzes de vigia do campo passar sobre sua casa. Os intervalos eram muito curtos. “Curtos demais para fugir”, comenta.
‘Gijsberta’s adel’
Em Novembro de 1942, os alemães estenderam a ferrovia até o Campo Westerbork. Em seu livro, ‘Gijsberta’s adel’, um agricultor diz a Gijsberta: “Agora há um braço da grande ferrovia para o acampamento. Não poderemos mais ver o êxodo.” Longe da estéril charneca. Gijsberta vê as torres de vigia de Westerbork. O acampamento, cercado de arame farpado, é maior do que ela pensava. Beate escreve: “No pátio, do lado de fora, duas menininhas brincam. Crescer num campo cercado de arame farpado. Como será isso, pensa Gijsberta.”
Os trens não apenas chegavam em Hooghalen. Toda terça-feira também partia um trem em direção aos campos de extermínio no leste europeu. Beate Plenter se lembra da moradora que vivia próximo ao trilho do trem. Depois que ela uma vez ouviu um menino gritar seu nome de dentro do trem, passou a fechar as cortinas todas as terças-feiras.
Detalhe de Monumento no antigo Campo
A trilha para o Campo Westerbork
Me despeço de beate Plenter e ando cinco quilômetros de Hooghalen até o Campo Westerbork. Ao longo da trilha, as árvores são testemunhas silenciosas da jornada que milhares de judeus foram obrigados a fazer.
A Westerborkpad termina no Boulevard des Misères, como os judeus chamavam o local do Campo Westerbork. Trilhos enferrujados e tortos e um monumento marcam o ponto final. O visitante quase pode sentir o olhar vindo da réplica da torre de vigia. Rosas vermelhas com cartões mostram que quase todos os dias alguém passa ali para prestar homenagem às vítimas.
A trilha Westerbork conta a história de 102 mil pessoas que passaram pelo Campo Westerbork a caminho dos campos de extermínio de Auschwitz, Bergen-Belsen, Sobibor, Theresienstadt e Mauthausen. Também é a história de cinco mil sobreviventes.

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