segunda-feira, 15 de outubro de 2012

A LUTA AEREA

A Alemanha revoluciona a guerra aérea

Armas de represália alemã V-1 e V-2


A operação Overlord entrava em sua segunda semana quando, pouco antes do amanhecer de 13 de junho de 1944, uma tremenda explosão sacudiu o povoado de Swanscombe, no condado de Kent, a uns 35 km de distância da estação central londrina de Charing Cross. Segundos antes, observadores do serviço de defesa civil haviam avistado, voando naquela direção e procedente do Canal da Mancha, um estranho avião cuja silhueta não se identificava com nenhum dos aparelhos aliados ou inimigos conhecidos até então. Uma testemunha o descreveu como "um pequeno avião de asa média que voava a grande velocidade, com um ronco parecido ao de um Ford T ao subir uma encosta; da sua cauda se desprendia um jato chamejante".

Essa declaração e outras similares, unidas ao fato de não ser encontrado o menor traço de algum cadáver entre os restos do avião - que jaziam dispersos em torno da cratera da explosão - e aos informes encontrados dos arquivos do Intelligence Service, levaram as autoridades britânicas à conclusão de que o estranho artefato devia ser um avião não tripulado e provido de uma potente carga explosiva, integrante do famoso arsenal de "armas secretas" com que, freqüentemente, a propaganda alemã ameaçava.

A notícia do novo perigo que pairava sobre a cidade causou viva impressão na população londrina, que temia voltar a viver, talvez numa versão mais terrível, as sangrentas jornadas da batalha aérea da Inglaterra. Assim, não é de estranhar que, nas primeiras dez semanas que se seguiram ao episódio de Swanscombe, mais de um milhão de londrinos tenham-se transferido voluntariamente ao campo, fora quase 300.000, na maioria mulheres com filhos pequenos e crianças em idade escolar, que foram evacuados por decisão governamental.


Hitler pede represálias

Os devastadores ataques aéreos desencadeados pela aviação aliada na primavera de 1942, em particular o incêndio e a destruição da velha cidade hanseática de Lübeck, em Schleswig-Holstein, provocaram um acesso de furor em Hitler, que imediatamente ordenou a execução de um programa de bombardeios de represália que espalhariam o terror entre a população civil e prejudicariam o esforço bélico britânico. A "operação Baedecker" ocasionou danos consideráveis em cidades como Bath, York e Exeter, porém a perda de quase 40 bombardeiros em pouco mais de 200 missões constituiu um preço muito elevado para as esquadrilhas participantes, transferidas propositadamente do teatro de guerra do Mediterrâneo, para esta operação a oeste da França. Também, como índice da diminuição da eficácia da Luftwaffe, cabe registrar o fato de que num ataque contra Norwich, somente duas toneladas de bombas, de um total de 102 lançadas, caíram nos limites da cidade. Foi então que, para a execução da campanha de represálias exigido pelo Führer, o Ministério do Ar alemão decidiu exumar de seus arquivos, nos quais dormia desde antes da guerra, um projeto de avião sem piloto, propulsado por uma turbina rudimentar, apresentado pela firma Argus Motorenwerke. Por sua vez, e também com a finalidade de represália, o exército determinou acelerar a desenvolvimento do projeto A-4, um foguete de longo alcance, em que trabalhava, desde alguns anos, uma equipe de técnicos encabeçada por Chamier-Glisenski, Dornberg e Werner von Braun.

O Inspetor-geral da Luftwaffe e Diretor de Equipamento da arma, Marechal-de-Campo Erhard Milch, presidiu, a 19 de junho de 1942, uma reunião no ministério, que foi assistida por representantes de firmas industriais vinculadas com o projeto "Argus". Decidiu-se, então, confiar à Fieseler (construtora do famoso avião Fieseler-Storch, "Cegonha") o, desenho e a produção do aparelho, enquanto a Argus e a Askania se encarregariam, respectivamente, do sistema de propulsão e de controle, com o engenheiro militar Brée, representante do Ministério do Ar, atuando como coordenador. Embora o Marechal Milch tivesse prometido um tratamento de alta prioridade ao desenvolvimento e produção do novo engenho bélico, transcorreriam dois longos anos - em lugar dos 15 meses calculados pelos peritos antes que o projeto chegasse à fase operativa.

A primeira experiência do "Fieseler 103", como foi designado em princípio (denominação mudada mais adiante, ainda na fase experimental, para FZG-76), ocorreu em dezembro de 1942, e consistiu no lançamento de um protótipo sem motor, de um Focke-Wulf 200 "Condor" sobre o campo de provas de Peenemunde, onde o exército continuava suas experiências com o foguete de longo alcance A-4. Poucos dias depois, a 24 de dezembro, efetuou-se o primeiro lançamento, de terra, alcançando o projétil uma distância de três quilômetros.

No verão de 1943, os preparativos para o produção em grande escala do FZG-76 - somente ao entrar em serviço seria designado com o nome de V-1 (abreviatura de Vergeltungswaffe 1 ou Arma de Represália n° 1) - estavam quase concluídos. Porém um violento ataque do aviação anglo-americana contra as fábricas Fieseler, em Kassel, impôs um adiamento de várias semanas nos planos. Finalmente, o produção maciça foi iniciada nos estabelecimentos Volkswagen, de Fallersleben, em setembro de 1943 (isto é, a três meses da data prevista para o início das operações).

Enquanto isso, os preparativos seguiram seu curso e os unidades formadas continuaram a instrução e treinamento das tropos que teriam a responsabilidade do manejo das novas armas. O Flakregiment 155 W (artilharia antiaérea), unidade designado para a operação do avião não tripulado, foi transferido, durante o verão, a Zinnowitz, na ilha de Usedom, próximo a Peenemunde. No primeiro momento, o Major-General Welter Dornberger, um perito em bolística de longo alcance, considerado o "pai" do foguete A-4 (chamado mais tarde V-2), tinha a seu cargo, tanto a supervisão dos programas de produção e sua coordenação com as necessidades de campanha como o comando direto das operações. Posteriormente, das operações com a futura V-1 seria encarregado um veterano artilheiro, o Tenente-General Erich Heinemann, enquanto que ao Major-General Richard Metz seria confiado o comando operativo da V-2. O Alto-Comando da Wehrmacht, todavia, contava como certo que ambas as armas estariam em condições operativas a tempo de oferecer um desagradável presente de Natal aos britânicos.

Informes alarmantes

Se bem que a explosão da primeira V-1 em Swanscombe pudesse causar alarma na população das ilhas, o acontecimento, de tão esperado, apenas produziu surpresa nas altas esferas aliadas: há vários meses se conhecia aproximadamente a natureza da nova ameaça alemã e estavam em estudo medidas para contrabalançar o seu efeito ou anulá-la, caso chegasse a concretizar-se. O fato de que, mesmo na obscuridade, a defesa antiaérea tenha podido reconhecer o estranho artefato e descrevê-lo como um “avião não tripulado”, desde o momento em que cruzou a linha da costa, indica o alto nível de prevenção alcançado pelas defesas britânicas, com base na informação recolhida de várias e diversas fontes desde o começo da guerra.

Já na fase inicial da luta, uma infinidade de informes denunciavam Peenemunde como um dos mais importantes centros de investigação das "armas secretas" alemãs, espécie de trunfo insuperável exibido ameaçadoramente pela propaganda do III Reich até ao final da guerra. Porém, durante muito tempo, as advertências concernentes a Peenemunde caíram mais ou menos no vazio, superadas por outras urgências mais imediatas que o decurso dos acontecimentos iam impondo à condução da guerra britânica. E assim se pode dizer que as primeiras fotografias aéreas de Peenemunde foram obtidas quase por casualidade: a 15 de maio de 1942, o Tenente D. W. Steventon, depois de uma missão de reconhecimento de Kiel, voou sobre aquele polígono de provas, fotografando o aeródromo; os peritos registraram a presença de uma série de estranhas construções ovóides, aparentemente de cimento armado, cuja finalidade não conseguiram interpretar. Em conseqüência, o "caso Peenemunde" ficou arquivado uma vez mais.

Até que, em dezembro de 1942, novos informes reunidos pelo Intelligence Service indicavam, com rara unanimidade, esse polígono de provas como sede de experiências alemãs com foguetes de grande alcance. Desta vez, sim, o alarma abalou as altas esferas e foi ordenada uma série de reconhecimentos aéreos, tanto de lugares "suspeitos" na Alemanha, como da faixa costeira francesa, confinante com o Canal; desse modo, os peritos obtiveram indícios reveladores da natureza dessas experiências. No entanto, o fato de não existir na organização de guerra britânica um departamento coordenador de todas as informações recolhidas pelos diversos serviços de inteligência das forças armadas, provocou múltiplas indecisões e demoras, primeiro quanto às medidas mais adequadas para conjurar o perigo e, segundo, quanto à oportunidade de aplicá-las. Ilustra perfeitamente a situação o fato de que, em determinado momento, muitos dos melhores agentes de espionagem britânicos estivessem empenhados - à custa de incalculáveis riscos e invertendo nela muito tempo e dinheiro - na tarefa de reunir todas as informações possíveis concernentes, não somente ao avião não tripulado FZG-76 ou "bomba-voadora" V-1 e ao foguete A-4 (V-2), como também, e com o caráter de alta prioridade, a um hipotético foguete de 60 toneladas de peso e 10 toneladas de carga explosiva, capaz de arrasar um bairro inteiro. Ao que parece, este fantástico artefato nunca existiu senão na imaginação de alguns assessores científicos do Gabinete da Guerra.

Logo se tornou evidente a necessidade de centralizar numa só pessoa toda a informação relativa às novas armas, supostas ou reais, alemãs. A escolha recaiu, em meados de abril de 1943, em Mr. Duncan Sandys, secretário parlamentar no Ministério de Abastecimentos e genro de Winston Churchill. De imediato se ordenou à Unidade Central de Interpretação iniciar, com a máxima prioridade, "uma investigação especial sobre artefatos bélicos do inimigo de natureza até agora desconhecida", missão que foi encomendada ao Comandante de Ala, Hamshaw Thomas, um. dos pioneiros da fotografia aérea. E Peenemunde, que somente havia sido fotografada do ar seis vezes, nos dois anos e meio da guerra, foi "visitada" pelos aviões de reconhecimento nada menos que quatro vezes naquele mesmo mês. Simultaneamente, a aviação aliada perscrutava e fotografava uma es treita faixa costeira, compreendida entre Cherburgo e a fronteira belga. As fotografias de Peenemunde revelaram, indiscutivelmente, a existência de longos objetos cilíndricos a bordo de enormes caminhões estacionados junto a uma série de pistas de asfalto. As obtidas na costa francesa, especialmente nas imediações de Bois Carré, mostravam um número crescente de construções de cimento armado, de teto semicilíndrico, unidas a rampas "em forma de esquis" por trechos convergentes de estradas asfaltadas; posteriormente verificou-se o significativo detalhe de que todas as rampas "apontavam" para Londres. Ao mesmo tempo, por vias secretas, chegava à capital britânica a advertência de que, dentro de não muito tempo, essa cidade seria atacada mediante uma mina aérea com asas, governada por controle remoto e impulsionada por um foguete", precisando que o lançamento teria o auxílio de uma catapulta.

Assim, pois, embora a ninguém tenha ocorrido ainda relacionar as rampas "em forma de esquis" - cujo número aumentava de semana a semana - com a bomba-voadora, da qual já se tinham precisas e abundantes referências, o novelo ia se desenredando, embora muitas vezes boa parte de seus fios se confundissem no emaranhado de uma informação promissora, porém contraditória. De qualquer maneira, Duncan Sandys tinha em suas mãos provas mais que suficientes para formular na reunião da seção Operações do Comitê de Defesa, presidida por Churchill, a 29 de junho, o pedido de um ataque maciço contra Peenemunde. Apelo que foi aprovado, mas a oposição de alguns céticos, que argumentavam que tudo não passava de um estratagema da contra-espionagem alemã, tendente a atrair sobre objetivos secundários muitas toneladas de bombas, destinadas a golpear pontos vitais do esforço de guerra do III Reich. No noite de 16 de agosto, 600 bombardeiros decolaram de suas bases para efetuar uma incursão de quase 2.000 quilômetros que os levaria à costa do golfo da Pomerânia, no litoral do mar Báltico; e embora 40 dos aviões atacantes fossem derrubados pelo fogo antiaéreo e pelos caças noturnos, o preço foi considerado aceitável, em vista dos tremendos danos infligidos às instalações da estação experimental.

A ofensiva se atrasa

De fato, as sucessivas vagas de bombardeiros arrasaram praticamente a zona em que se desenrolavam as provas com o foguete, assim como também as residências dos técnicos, em cujas fileiras se registraram numerosos mortos, entre os quais o General Chamier-Glisenski, chefe da base. Curiosamente, a parte meridional da estação, onde se experimentava a "bomba-voadora" não sofreu o menor dano, a ponto do Coronel Wachtel, chefe do Flakregiment 155 W, pensar que se tratasse de um mero alarma aéreo, não se dando conta, até à manhã seguinte, da magnitude das destruições causadas.
Um dos imediatos resultados do devastador ataque aéreo foi que os alemães tiveram que abandonar o seu programa de montagem dos foguetes em Peenemunde, Friedrichshaffen e Wiener Neustadt. Para evitar ulteriores ataques decidiram recorrer a uma oficina subterrânea, próxima de Niedersachswerfen, nas montanhas Herz.

Em virtude do mesmo temor, e cumprindo ordens pessoais do Führer - que depois de ver num filme o lançamento de um foguete A-4 havia mudado o seu anterior ceticismo no mais fervente entusiasmo pelas novas armas - o General Heinemann determinou a transferência para o leste alemão, e até para Blizna (Polônia), das unidades sob o seu comando, às quais se haviam somado, recentemente, equipes de rastreio aéreo, dotadas de rádio e de radar, com a missão específica de avaliar a precisão do material em experiência e o grau de treinamento das tropas. Com esta medida, se bem que as unidades ficassem a coberto de possíveis ataques aéreos, as provas podiam ser facilmente fiscalizadas pelos agentes da Resistência polonesa, cujos informes não tardariam a chegar a Londres.

Um pouco mais adiante, em fins de 1943, foi criado o 65o Corpo, sempre sob os ordens de Heinemann, que teria ao seu cargo a dupla ofensiva com as Vergeltungswaffen V-1 e V-2. Era integrado pelo Flakregiment 155 W (Coronel Wachtel) e Harko 91 (General Metz). Essas unidades ficaram reorganizadas em quatro brigadas cada uma, compostas por quatro baterias, cada uma das quais teria a seu cargo quatro posições de lançamento. As de Wachtel operariam em 64 rampas de lançamento das 96 construídas entre o Passo de Calais e Cherburgo, assim como em outras instalações erguidas em Lottinghem, Siracourt e Equeurdreville. As quatro brigadas de Metz - das quais três eram móveis operariam de 39 posições de tiro estabelecidas ao norte do Somme e 6 na Normandia, assim como das grandes instalações de Wizernes e Sottevast.

Se bem que no OKW (Comando Supremo da Wehrmacht) se considerasse possível o início da dupla ofensiva com a "bomba-voadora" e o foguete A-4 em princípios de 1944, o General Heinemann, depois de uma visita de inspeção à sua futura zona de operações, alimentava sérias dúvidas o respeito. Segundo ele, os pontos para lançamento da V-1 tinham o grave inconveniente de serem facilmente localizáveis pela aviação aliada e muito vulneráveis aos seus ataques. Por outro lado, nas obras haviam participado muitos trabalhadores franceses, o que permitia razoavelmente supor que no Intelligence Service já deviam existir detalhados informes acerca das construções.

Em conseqüência, depois de haver refletido sobre os prós e os contras da sua decisão, Heinemann propôs, ao OKW desistir das posições “em forma de esquis” já preparadas que serviriam, de qualquer modo, como "isca", para atrair os golpes da aviação inimiga - e preparar, em seu lugar, uma nova rede de posições de tiro, muito simplificadas com relação às anteriores. A sugestão foi aceita, e Heinemann ordenou um programa de construções onde foram reforçadas as medidas de segurança e se empregou exclusivamente mão-de-obra alemã. Nessas "posições modificadas" - como as designaram os serviços de inteligência aliados - a obra viva ficou reduzida ao mínimo: apenas as rampas de lançamento - cuidadosamente camufladas, por sua vez e os depósitos subterrâneos de combustível para as "bombas-voadoras". Quanto a estas, foram eliminados os depósitos para seu armazenamento, adotando-se "a dispersão em campo aberto", como os aviões estacionados em suas bases.

O General Heinemann acolheu também a impressão de que os planos prévios não haviam levado muito em conta os engarrafamentos nas comunicações e abastecimentos, que fatalmente se produziriam na zona operativa, dada a absoluta supremacia da aviação aliado nos céus da Europa. Já nessa época, o duro castigo que o Comando de Bombardeio infligia à indústria alemã, criava, a cada passo, problemas progressivamente mais graves que, por sua vez, impunham consideráveis atrasos, tanto na produção como no desenvolvimento dos projéteis. Não se fabricavam em número suficiente para o treinamento das unidades, ocorrendo mesmo casos em que algumas deles começaram a ofensiva sem haver efetuado um só disparo com projéteis "reais". Também, a qualidade destes se ressentia notavelmente; em muitas ocasiões, a trajetória era absolutamente imprevisível e não faltaram casos em que a bomba descrevia uma curva de 180 graus e se abatia sobre a rampa de lançamento, espalhando o terror e a morte entre as desconcertadas guarnições; em uma série de provas, mais de 50% das bombas não chegaram a abandonar a rampa e, das que o fizeram, 90% explodiram antes de chegar ao alvo.

O programa de treinamento das tropas do General Metz, incumbido das V-2, sofreu também um sério atraso, quando, no curso de um ataque aéreo inimigo, foi atingido por acaso a fábrica que montava os caminhões especiais encarregados do transporte dos foguetes e de seu combustível propulsor. Considerando todos essas dificuldades, o General Heinemann não acreditava que os homens do Coronel Wachtel (V-1) estivessem em condições de iniciar sua ofensiva antes de maio ou junho de 1944; quanto às unidades do General Metz, previa um atraso ainda maior. Conseqüentemente, determinou o deslocamento do Flakregiment 155 W para o norte da França em fins de 1943.

Alerta nas ilhas

Enquanto isso, um acúmulo de informações das mais heterogêneas continuava afluindo aos serviços de inteligência britânicos. Sua procedência era também muito variada: seus próprios agentes em território inimigo, reconhecimentos aéreos, informes de membros da Resistência nos países ocupados, de operários recrutados à força para trabalhar na indústria bélica do Reich e, freqüentemente, também dos agentes da contra-espionagem alemã infiltrados naquelas organizações, que procuravam levantar uma cortina de dados falsos, para confundir seus rivais.

Com essas informações, unidas às encontradas em seus arquivos e ao assessoramento de homens de ciência e da Unidade Central de Interpretação Fotográfica, o Estado-Maior da Força Aérea - novamente encarregado da investigação por afastamento de Mr. Duncan - estava em condições de armar parcialmente as peças do quebra-cabeças: num informe apresentado a 1o de dezembro ao Gabinete da Guerra, traçava com bastante aproximação, um esboço da nova ameaça que pairava sobre a Grã-Bretanha. Nele eram analisadas as diferenças entre a "bomba-voadora" e o foguete de longo alcance, e estabelecidas as conexões entre as estruturas de cimento armado e os "estranhos objetos provavelmente voadores" fotografados em sucessivos reconhecimentos em Peenemunde, com as "rampas em forma de esquis", que, em número de 96, haviam sido localizadas até o dia anterior na costa francesa do Canal. Na reunião que o Gabinete da Guerra celebrou a 2 de dezembro, decidiu-se, em vista da gravidade da situação descrita no informe, lançar uma série de ataques aéreos sobre as bases detectadas. No dia 5 de dezembro, uma massa de caça-bombardeiros e bombardeiros leves da Segunda Força Aérea Tática e da Nona Força americana, levou a cabo uma ação "experimental". A 24 do mesmo mês teve lugar o segundo ataque, este de proporções maciças: 672 "Fortalezas-Voadoras", numa incursão diurna, lançaram 1.472 toneladas de bombas sobre 24 posições escolhidas. Apesar da oposição mais ou menos declarada do Marechal Harris, chefe do Comando de Bombardeio e do Tenente-General Carl Spaatz, comandante das Forças Aéreas Estratégicas na Europa, que não viam com bons olhos seus bombardeiros pesados serem "distraídos" da sua missão de aniquilar a indústria alemã, nos primeiros seis meses de 1944 a aviação aliada atirou sobre as bases de lançamento um total de 31.000 toneladas de bombas (a magnitude da cifra fica demonstrada se recordarmos que durante a blitz aérea contra Londres, entre setembro de 1940 e maio de 194 , os alemães lançaram um total de 19.000 toneladas). Os peritos aliados calcularam, em princípios de maio, que 21 das 54 bases de lançamento atacadas haviam sido virtualmente destruídas e que pelo menos outras 15 sofreram danos consideráveis. A impressão otimista de alguns círculos teve sua expressão máxima num memorando do Estado-Maior do Ar, de 11 de junho (isto é, dois dias antes que caísse em Swanscombe a primeira V-1), no qual se afirmava que era extremamente improvável que as bases de lançamento pudessem ser utilizadas "em escala apreciável", no decurso das próximas semanas. Nessa mesma noite chegava a Londres um informe procedente da Resistência belga, anunciando que um comboio transportando 99 objetos cilíndricos, aparentemente foguetes, havia sido avistado perto de Gante, em trânsito para a fronteira francesa.

Preparativos de ataque

Enquanto o General Heinemann estabelecia o seu QG em Maisons-Lafitte, próximo de Paris, para seguir de perto a construção das novas bases de lançamento "simplificadas" e a rede de abastecimentos em conexão com elas, a produção em série da V-1 foi iniciada em meados de janeiro de 1944, em Niedersachswerfen. Porém teve que ser interrompida pouco depois, para dar a Dornberger e seus técnicos oportunidade de introduzir algumas modificações. Os estudos requereram algumas semanas, com o conseqüente atraso na produção.

Coerente com sua opinião de que a "bomba-voadora" entraria em operações vários meses antes que o foguete, o General Heinemann dedicou preferência à solução dos problemas vinculados com as tropas do Coronel Wachtel, enquanto o deslocamento dos unidades do General Metz rumo às suas posições de combate seguia um ritmo mais lento.

Em princípio ficara estabelecido que as unidades a cargo da V-1 receberiam suprimento de combustível de três depósitos situados ao norte do Somme, três entre o Somme e o Sena, e dois da Normandia, a oeste do Sena. Do mesmo modo, as unidades do Harko 91 (a cargo da V-2) obteriam oxigênio líquido de depósitos protegidos, situados no Passo de Calais e em Calvados, e o álcool de oito depósitos da vanguarda, que, por sua vez, seriam abastecidos com reservas armazenadas nos subúrbios de Paris e nas cercanias de Lille. Todos eles estavam unidos às posições de tiro por meio de ramais ferroviários que, seguramente, estariam - na opinião de Heinemann - perfeitamente localizados e vigiados por agentes inimigos.

Do mesmo modo que fez prevalecer o seu critério de abandonar, por segurança, as antigas posições em favor das "simplificadas", Heinemann decidiu, com a aprovação do OKW, prescindir dos depósitos da vanguarda, que foram substituídos por duas enormes cavernas de pedra em Nucourt e Saint Leu-d'Esserent, no vale do Oise, e um túnel ferroviário em Rilly-la-Montagne, ao sul de Reims. Nos seis meses transcorridos entre janeiro e junho de 1944, Heinemann teve a enorme satisfação de ver como os Aliados desperdiçavam muitas milhares de toneladas de bombas nas posições abandonadas que, segundo suas previsões, serviram de chamariz para a aviação, enquanto que as posições "simplificadas" e os novos depósitos de Nucourt, Saint Leu-d'Esserent e Rilly-la-Montagne não receberam um só impacto. Finalmente, no dia 6 de junho, poucas horas depois do desembarque aliado na Normandia, Heinemann emitiu ao Coronel Wachtel a ordem de preparar seu Flakregiment 155 W para operações imediatas contra a Grã-Bretanha. Nos seis dias seguintes, e apesar dos contínuos ataques da aviação aliada contra os centros de comunicações franceses, que haviam paralisado praticamente o tráfego ferroviário diurno, mais de 800 "bombas-voadoras" dos depósitos de Nucourt e Saint Leud'Esserent, assim como grandes quantidades de gasolina de aviação e outros combustíveis, chegaram às rampas de lançamento. Na noite de 12 de junho, 54 dos 70-80 locais disponíveis até o momento ao norte e a leste do Sena haviam completado os preparativos prévios e estavam em posição de tiro.

Na noite de 11, o Coronel Walter, chefe do Estado-Maior do 65o Corpo, manteve uma reunião com o Coronel Wachtel em Maisons-Lafitte, sede do QG de Heinemann. Ordenou-lhe que iniciasse o ataque no dia seguinte, porém, ante as objeções do comandante do Flakregiment 155 W, que argumentava que muitas de suas baterias não estavam ainda suficientemente abastecidas de combustível, decidiu adiar o início das operações para a noite de 12. A ordem especificava que as baterias abririam fogo de forma tal, que a primeira salva chegasse a Londres às 23 h 40 m, continuando depois com "fogo de fustigamento" à medida que as diferentes rampas de lançamento estivessem em condições. O Coronel Wachtel regressou ao seu posto avançado em Saleux, perto de Amiens, entregando-se de imediato à tarefa de coordenar os operações de suas baterias. Os informes que chegavam das rampas eram incompletos e vinham com tanta atraso que era impossível ter uma idéia do grau de prontidão das diversas unidades. Para cúmulo dos males, à última hora, Wachtel teve notícia de que nem uma só das rampas - muitas delas montadas apressadamente e sem ter sido experimentadas - tinha pronto o dispositivo de segurança. Via-se entre a alternativa de adiar a execução das ordens recebidas ou expor os seus homens ao risco de operar uma arma pouco segura, em rampas não testadas; por sorte, o General Heinemann, que havia acudido a Saleux para presenciar o disparo da primeira salva, pôde ver por si mesmo a dificuldade inerente ao fato de dirigir o tiro de mais de 50 posições deficientemente equipadas, dispersos em mais de 15.000 quilômetros quadrados de território hostil, e debaixo de um céu dominado pela aviação inimiga. Compreendendo a absoluta impossibilidade do cumprimento das ordens, concedeu pessoalmente a permissão para adiar o disparo da primeira salva até às 3 h 30 m da manhã do dia 13, continuando depois o “fogo de fustigamento” por todas as rampas.

Na realidade, os resultados foram bastante mais modestos: ao todo, somente 10 "bombas-voadoras" partiram das rampas de lançamento à custa de extenuantes esforços das guarnições. Delas, 5 explodiram no ar pouco depois de disparados, outra desapareceu tomando rumo imprevisto (provavelmente caiu no Canal da Mancha), e os quatro restantes chegaram à Inglaterra. A primeira foi a causadora do "ronco de Ford T" detectado pelos observadores do serviço civil, e caiu em Swanscombe; as três seguintes caíram em Cuckfield, Sussex, em Bethnal Green, Londres, e em Platt, condado de Kent. Não houve baixas, salvo em Bethnal Green, onde seis pessoas perderam a vida e nove foram feridas ao ser destruída uma ponte ferroviária.

Pouco depois, o Coronel Wachtel recebia um chamado telefônico de Moisons-Lafitte: era o Coronel Walter, que em nome do seu chefe (Heinemann) lhe ordenou não efetuar mais disparos até novo aviso e camuflar as rampas de lançamento. Walter culpou o comandante do Flakregiment 155 W do fracasso da noite anterior e chegou inclusive a ameaçá-lo com um tribunal militar, ao que Wachtel respondeu que havia feito tudo o que era humanamente possível nas circunstâncias que atravessavam, e que faria o impossível para descobrir as falhas e saná-las. Ao entardecer do dia 15, Wachtel informava ao QG do 65o Corpo que todas as posições haviam sido adequadamente supridas de combustível e projéteis, as instalações estavam completas e a totalidade dos seus efetivos se achava em condições de reabrir fogo imediatamente.

O plano "Diver" em ação

Pouco antes das quatro da manhã de 13 de junho, dois membros do serviço de defesa civil divisaram do seu posto de observação em Dymchurch, Kent, a primeira "bomba-voadora" que chegava às ilhas. Trinta e cinco segundos depois, um deles transmitia por linha telefônica especial a palavra chave: Diver, que poria em estado de alerta o QG da Defesa Aérea da Grã-Bretanha, comandado pelo Marechal-do-Ar Roderic M. Hill, que, por sua vez, se encontrava às ordens do também Marechal-do-Ar Sir Trafford Leigh-Mallory, comandante da Força Aérea Expedicionária Aliada. Da sala de operações em Stanmore, foram transmitidas, com a premência que o caso exigia, as ordens para o imediata execução do plano "Diver": a partir desse momento, as barreiras de globos seriam levantadas; os radares de direção de tiro e os baterias antiaéreas às ordens do Tenente-General Sir Frederick Pile, assim como os aviões do Comando de Caça e os equipes de refletores permaneceriam em alerta permanente, prontos para atacar qualquer artefato voador inimigo que penetrasse no espaço aéreo das ilhas. Naquela mesma manhã, na reunião diária de chefes de Estado-Maior, Hill sugeriu que, ante os reduzidas proporções da ofensiva alemã (somente quatro projéteis caíram em território britânico) e de sua aparente suspensão momentânea, convinha não alterar em nada as medidas defensivas (plano "Diver") mas lançar, ao contrário, devastadores ataques aéreos contra as plataformas de lançamento que, à luz da observação aérea, revelassem haver sido empregados recentemente. Sua proposta tropeçou com a resistência dos comandantes das forças de bombardeio, pouco dispostos a "distrair" seus aviões das operações de apoio ao exército de desembarque e fustigamento às comunicações alemães na Normandia, para emprega-los numa missão de atacar alvos tão escorregadios como as rompas de lançamento. O chefe do Estado-Maior-do-Ar, Marechal Portal, propôs uma forma intermediária: em lugar da destruição das rampas localizadas até o momento, que exigiria várias milhares de saídas aos bombardeiros, sugeriu lançar um ataque concentrado sobre os depósitos conhecidos, com o que se conseguiriam efeitos similares (a paralisação do ofensiva V-1) a um custo notoriamente inferior. Na tarde do dia 13, o Gabinete da Guerra concordou em que se devia pedir ao Comandante Supremo aliado, General Eisenhower, autorização para lançar "poderosos ataques aéreos" contra esses depósitos; ao mesmo tempo se sugeria atacar também as rampas "simplificadas", porém com tão pouca ênfase que estas ficavam automaticamente relegadas ao grau de objetivos secundários. Deste modo, o astuto General Heinemann teve o satisfação de comprovar o acerto das suas previsões quando, entre 13 e 15 de junho, a aviação americana descarregou demolidores bombardeios sobre os inúteis depósitos abandonados por ordem sua, ao mesmo tempo que as rampas "simplificadas", de onde operava o Flakregiment 155 W, não recebiam outras "visitas" senão as de alguns aparelhos do Serviço Fotográfico.

Entre as 10 e as 20 horas do dia 15, as tropas de Wachtel, superadas suas dificuldades operativas, lançaram 244 projéteis contra Londres, além de outros cinqüenta dirigidos contra Southampton. Muitos explodiram imediatamente, porém os informes britânicos assinalaram que 144 projéteis V-1, dos 155 avistados, conseguiram cruzar a costa e que mais da metade caíram no perímetro londrino. A defesa antiaérea abateu 33 "bombas-voadoras", o que nem sempre era aconselhável, já que, contra a crença geral de que os projéteis alcançados explodiriam no ar, 13 deles caíram em zonas edificadas da capital, ao passo que teriam caído no campo se tivessem seguido a trajetória que levavam.

A 16 de junho, o Marechal Hill, considerou chegado o momento de colocar em marcha a segunda fase do plano "Diver", cuja execução se completou em menos tempo do que estava previsto, graças à ativa colaboração do Tenente-General Pile e do Vice-Marechal-do-Ar Gell, que tinha a seu cargo a barreira de globos e realizou a façanha de distribuir, em cinco dias, quinhentos deles a sudeste de Londres. No mesmo dia, em uma reunião de chefes de Estado-Maior, presidida por Winston Churchill, em sua qualidade de Ministro da Defesa, decidiu-se solicitar novamente ao Comandante Supremo aliado a execução de contramedidas tendentes a "destruir e neutralizar" os depósitos e rampas de lançamento da V-1, "sempre que tais ações não interferissem nas necessidades essenciais da luta na cabeça de praia da Normandia". Porém, também desta vez, por deficiência na coordenação dos Serviços de Inteligência, nas determinações do Marechal Leigh-Mallory era indicada prioridade máxima na operação contra os depósitos abandonados, seguidos, em ordem de preferência, por onze das também abandonadas e inúteis rampas "em forma de esquis" e doze das plataformas "simplificadas". E, novamente, os bombardeios diurnos da aviação americana e os noturnos da RAF foram um mero desperdício de bombas sobre alvos carentes salvo no caso das poucas plataformas "simplificadas" - de qualquer valor militar. E, por conseguinte, seus efeitos sobre a marcha das operações da V-1 foram escassos ou nulos.

O Marechal Hill desejava que a aviação castigasse metodicamente as 70 rampas "simplificadas" nos quais a evidência fotográfica registrara atividade recente. Porém, uma vez mais, chocou-se com a oposição dos "bombardeiros" Marechal Harris e General Doolitle, que sustentavam que, em lugar de ataques isolados e dispersos, era preferível lançar todos os recursos disponíveis num esforço concentrado uma só vez e no momento oportuno. Isso significava, aparentemente, um novo adiamento. Porém, aconteceu que no dia 18 de junho, um domingo, uma "bomba-voadora" caiu às 11 h 20 m na capela de Wellington Borracks, a apenas 500 metros do palácio de Buckingham e não longe de outros centros militares e do governo. A explosão causou a morte ou ferimentos graves em 78 civis e 111 militares que assistiam à missa. Nenhuma das V-1 havia causado até então tal número de vítimas (em realidade, as estatísticas britânicas calculavam até aquele momento uma pessoa morta em cada bomba caída), e este fato expôs, então, ante os círculos governamentais, a dramática necessidade de neutralizar de imediato essa ameaça. Nesse mesmo dia, o General Eisenhower ordenou que, até nova ordem, os ataques contra as armas de longo alcance alemães tinham prioridade sobre todo objetivo que não estivesse diretamente vinculado com a batalha que o exército aliado estava travando do outro lado do Canal. Enquanto isso, a Unidade Central de Interpretação Fotográfica estabelecera uma evidente relação entre os depósitos de Nucourt e Saint-Leu-d'Esserent com as rampas "simplificadas" em atividade, e ambos os objetivos foram postos à frente da até então incompleta e errônea lista de prioridades do Ministério do Ar. Foi criado o Comitê para a operação "Crossbow" (Catapulta), sob a presidência de Mr. Duncan Sandys, com a tarefa de supervisionar as medidas em fase de execução contra as armas de longo alcance alemães. Na última semana de junho, a Oitava Força Aérea americana lançou vários ataques maciços contra Nucourt e Saint-Leu-d'Esserent; de seu lado, também o Comando de Bombardeio britânico atacou Saint Leu nos noites de 4 e 7 de julho.

O resultado aparente desses ataques foi que o número de bombas, que diariamente chegavam à Grã-Bretanha, diminuiu de 100 a menos de 70 por dia, entre 7 e 17 de julho, das quais a defesa derrubava uma média de 40 diários, atingindo Londres umas 25. Porém, outros teatros de guerra reclamavam a presença dos bombardeiros aliados e a operação "Crossbow" poucas vezes voltou o ter (pelo menos com referência à V-1) contornos espetaculares; a tarefa de enfrentar as V-1 ficava entregue daí por diante, aos recursos exclusivos da Defesa Aérea da Grã-Bretanha.

Contudo o êxito defensivo que as forças do Marechal Hill estavam obtendo na batalha da V-1, traduzido na baixa porcentagem de "bombas-voadoras" que atingiam o alvo principal - Londres - o sistema apresentava aos olhos do comandante da Defesa Aérea da Grã-Bretanha alguns inconvenientes que impediam o pleno rendimento das armas empregadas e suscitavam com freqüência espinhosos problemas de jurisdição e competência. Foi necessário regulamentar o campo de ação dos caças e da artilharia antiaérea; foi preciso decidir que nos dias de bom tempo os caças tinham prioridade para a perseguição dos projéteis inimigos, mesmo dentro do chamado "cinturão artilheiro”, enquanto que nos de pouca visibilidade, os aviões eram proibidos de sobrevoar essa zona. Apesar de tudo, ocorriam acidentes que por sua vez geravam atritos entre as corporações. Decidido a obter o melhor resultado dos recursos de que dispunha e contando com a aprovação de Sir Robert Watson Wat, o inventor do radar, que opinava que suas equipes trabalhariam melhor perto do mar, o Marechal Hill ordenou o deslocamento do "cinturão artilheiro" à costa sul da Inglaterra. Desta forma; embora o campo de ação dos caças ficasse dividido em dois - sobre o mar, diante do "cinturão artilheiro, onde as equipes de radar os ajudariam na localização dos alvos, e em terra, atrás do “cinturão”, onde seriam guiados pelos observadores da defesa civil mediante foguetes de sinalização, refletores e projéteis de balizamento - a artilharia seria beneficiada por poder usar, sem restrições, os novos projéteis americanos, providos de um dispositivo de ondas de rádio que os fazia explodir automaticamente nas proximidades do alvo; tais projéteis não eram utilizáveis nas zonas habitadas, pois tinham o grave inconveniente de que se não passassem perto do alvo, caíam ao solo sem explodir, e podiam significar um perigo para a população.

Tanto o Tenente-General Pile, comandante da artilharia antiaérea, como o Vice-Marechal Saunders, que comandava o 2o Grupo de Caça, se mostraram de acordo, numa reunião celebrada a 13 de julho, com o novo dispositivo, pelo que Hill ordenou a imediata execução, sem esperar o autorização dos chefes de estado-maior. Esta ação poderia custar-lhe a carreira ou proporcionar-lhe uma maior liberdade de ação, como tributo de respeito a um comandante que sabia fazer valer suas convicções. De início, lhe valeu uma reprimenda por escrito do Comitê "Crossbow" onde era censurado por agir sem consultá-lo.

A 17 de julho estava completo o deslocamento. Mais de 800 canhões servidos por 23.000 homens e mulheres, junto com mais de 60.000 toneladas de víveres e munições, ocupavam suas novas posições, intercomunicadas por mais de 5.000 quilômetros de cabos.

A princípio, os fatos pareceram inclinar-se contra Hill. Na primeira semana sob o novo sistema, 204 "bombas-voadoras" de um total de 473 avistadas, atingiram os limites urbanos de Londres; somente entre o entardecer de 21 de julho e o do dia 22, os canhões e os caças derrubaram 43 projéteis, e os globos das barreiras outros 17. Porém o resultado era ligeiramente inferior ao da última semana sob o antigo sistema, e o dos caças, particularmente, notoriamente inferior.

No entanto, como prêmio aos esforços de Hill por coordenar a ação dos seus subordinados, os resultados defensivos começaram a melhorar em fins de julho. A percentagem de projéteis destruídos subiu na terceira semana de agosto a 74% dos detectados, chegando em algumas semanas posteriores, a 83%. Também, como fatores que de um modo ou de outro influíram para que a balança se inclinasse decididamente para o lado dos defensores, é necessário citar o incremento recebido pelo “cinturão artilheiro”, de 38 canhões leves e 180 pesados, o emprego dos novos caças a reação "Meteor" - embora o grosso dos aviões continuassem sendo os "Tempest" V, "Spitfire" XIV, "Mustang" III e, em missões noturnas, os "Mosquitos" - e a adoção de novos sistemas de radar, especialmente adaptados.

Hill pôde declarar com relação à eficácia da defesa que "somente uma de cada oito bombas disparadas tem probabilidade de chegar ao alvo". A 28 de agosto, por exemplo, 28 caças que voavam sobre o mar diante do "cinturão artilheiro" derrubaram 13 bombas de um total de 97 detectadas; os canhões deram conta de outras 65 e novamente os caças abateram outras dez; das 9 restantes, 2 se chocaram. contra a barreira de globos, 4 caíram no objetivo e 3 passaram de largo para cair no campo.

A constante ascensão da curva de êxitos defensivos induziu os membros do Comitê "Crossbaw" e o Ministério do Ar a enviar nos primeiros dias de setembro várias cartas de felicitações ao Marechal Hill, com o que, implicitamente ficava aceita a sua decisão de transladar a artilharia antiaérea à costa sul.

Porém, pilotos e artilheiros não iriam mais ter muitas ocasiões de demonstrar a sua capacidade combativa. Depois de cruzar o Sena perto de Paris, a 29 de agosto, tropas anglo-canadenses chegaram ao Somme no dia 31, poucas horas antes que uma bateria descarregada do Flakregiment 155 W efetuasse o último disparo do território francês, ao amanhecer de 1o de setembro, antes de bater em precipitada retirada para um acampamento situado nas imediações de Amberes, onde já se encontrava o grosso do regimento. O General Heinemann, com o Estado-Maior do 65o Corpo, esteve a pique de cair nas mãos das vanguardas britânicas, perto de Waterloo, quando procurava se dirigir a Bruxelas, procedente de Maisons-Lafitte.

A pausa imposta pela retirada das tropas do Coronel Wachtel somente foi quebrada a 5 de setembro. Ao amanhecer desse dia, o III KG 3, uma formação de velhos bombardeiros "Heinkel" III, adaptados para o lançamento das V-1 do ar, disparou nove projéteis contra Londres, antes de retirar-se para o noroeste do Alemanha. Com as 100 "bombas-voadoras" lançadas ao todo por essa unidade desde a primeira semana de julho, o total de projéteis V-1 disparados contra a Grã-Bretanha chegou a cerca de 9.000. Deles, mais de 2.000 se desintegraram pouco depois do lançamento; dos 6.725 que foram avistados da costa inglesa, 3.463 caíram graças à ação dos caças, canhões ou barreiras de globos. Os restantes alcançaram a zona de defesa civil de Londres, salvo algumas dezenas que caíram no campo ou em outras cidades.

Uma nova ameaça: a V-2

No mesmo dia (13 de junho) em que o Coronel Wachtel iniciava a ofensivo V-1 contra Londres, um foguete A-4 procedente da reconstruída estação experimental de Peenemunde, desviou-se inesperadamente da trajetória marcada e foi cair no sul da Suécia, perto de Molmö, depois de um vôo de mais de 150 quilômetros. Autorizados pelo governo sueco, dois oficiais do Intelligence Service britânico inspecionaram os restos do foguete e acertaram o seu envio ao Reino Unido.

A Alemanha protestou energicamente ante a Suécia, pelo que considerava "uma atitude desleal e em conflito com a política de neutralidade proclamada por esse governo". A nota diplomática alemã não era acompanhada de ameaças (que, por outro lado, o III Reich já não estava mais em condições de cumprir) e nem foi levada em conta pelas autoridades suecas; assim, a primeira remessa dos restos do foguete chegou à Grã-Bretanha em meados de julho, chegando a outra por mar, no dia 31. O projétil foi "reconstruído" pelos técnicos do Ministério do Ar, sob a direção do doutor Jones, nos laboratórios. de Farnborough.

Quase ao mesmo tempo chegava a Londres um engenheiro polonês que tivera ocasião de examinar um foguete capturado quase intacto pelos membros da Resistência em Blizna, Polônia, onde os alemães estavam testando a nova arma. O emissário trazia uma valise com mais de 50 quilos de material retirado do foguete, e seus informes foram de inestimável importância para determinar as características da futura V-2.

Pouco depois, o comitê "Crossbow" tinha em seu poder uma descrição bastante precisa da nova ameaça que pairava sobre Londres. O artefato que o Marechal Hill e seus efetivos da Defesa Aérea da Grã-Bretanha teriam de enfrentar, era, segundo estimativas do doutor Jones, um foguete de uns 12 a 15 metros de comprimento e com cerca de 12 toneladas de peso, com uma carga explosiva de 800 a 1.500 quilos; era atribuída a ele uma velocidade acima de 3.000 quilômetros por hora, com um alcance de 400 a 500 quilômetros e uma altura máxima de quase 100 quilômetros. Para o lançamento do foguete não se requeriam instalações especiais: bastava uma plataforma de cimento de poucos metros quadrados, sobre a qual estacionava o veículo vector - um caminhão especialmente construído e munido de um dispositivo que permitia colocar o foguete em posição vertical. Segundo todos os indícios, os alemães haviam iniciado vários meses atrás a fabricação em massa da arma, e por essa razão os técnicos acreditavam que a ofensiva V-2 pudesse começar em princípios de setembro.

Hill e o seu estado-maior previam que o dispositivo de defesa testado com tão bons resultados contra a V-1, resultaria de escassa ou nula eficiência diante da V-2. Sabiam que os depósitos de armazenamento dos foguetes eram subterrâneos, embora também houvesse alguns de madeira, perfeitamente camuflados e dispersos em bosques; sabiam também que os foguetes a ponto de lançamento e suas guarnições somente seriam vulneráveis a um ataque aéreo afortunado durante um lapso de duas horas aproximadamente. Assim, suas maiores esperanças repousavam na possibilidade de que a ação dos bombardeiros aliados desarticulasse as comunicações alemãs e dispersasse as unidades encarregadas da operação V-2. E, principalmente, que o avanço aliado na Europa obrigasse o inimigo a retirar-se para linhas mais afastadas, de modo que Londres ficasse fora do alcance do foguete.

Essas esperanças decaíram um pouco ao concentrar o General Eisenhower o peso principal da sua força sobre a ala direita do avanço, e se desvaneceram por completo com o fracasso da audaciosa operação dos pára-quedistas britânicos em Arnhem-Nimega, em território holandês.

As SS e as armas secretas

Desde que o foguete A-4 entrou em uma fase avançado do seu desenvolvimento, as SS pareciam considerar a nova arma como sua. Por sua influência operou-se a transferência das tropas em instrução a Blizna, reduto das SS. Também a decisão de efetuar a montagem do foguete em Niedersachswerfen obedecia à mesma razão. A 6 de agosto de 1944, duas semanas depois do atentado contra Hitler, este designou Himmler como Comissionado Especial para todas as questões relativas à V-2. Aparentemente, a decisão do Führer tinha, implícita, uma dupla finalidade: recompensar a lealdade das suas SS, dando-lhes o controle de uma arma inédita, e, ao mesmo tempo, infligir um castigo coletivo à Wehrmacht - que havia acolhido em seu seio os "traidores" de julho - arrebatando-lhe o fruto de muitos anos de estudos e esforços. Himmler surrupiou de fato as operações V-2 das mãos do General Heinemann, cujo malbaratado 65o Corpo estava se reagrupando "em algum lugar do oeste". O comando dos operações foi confiado ao General das SS Kammler, que recebeu, a 29 de agosto, a ordem de iniciar a ofensiva contra Londres de uma área compreendida entre Gante, Tournai, Malinas e Amberes, plano que teve de ser abandonado ante a rapidez do avanço aliado. Dividiu suas tropas em dois grupos, de duas baterias cada um: o Grupo Norte, comandado pelo Coronel Hohmann, que tomaria posição perto de Haia para atacar Londres, e o Grupo Sul, sob as ordens do Major Wehbe, distribuído na Renânia para atacar objetivos na França e Bélgica; ao todo, uns 6.000 homens equipados com cerca de 1.600 caminhões. Contava, também, com "uma bateria experimental", agregada ao Grupo Sul com a missão específica de atacar Paris. Depois de duas tentativas falhas efetuadas a 6 de setembro, essa bateria conseguiu, no dia 8, um impacto na zona povoada dos subúrbios parisienses. Posteriormente, a unidade experimental foi agregada ao Grupo Norte, e, de suas posições na ilha holandesa de Walcheren, somou-se ofensivo contra Londres.

Dupla ofensiva V-1 e V-2

Os alarmantes informes que indicavam a iminência da ataque a Londres com foguetes de longo alcance tiveram confirmação às 6 h 43 m da manhã de 8 de setembro, quando um desses artefatos, disparado de um local próximo a Haia, explodiu em Chiswick, causando três mortes e dez feridos. Um minuto depois, outro foguete da mesma procedência destruía algumas choças de madeira em Epping.

Na sua função de Comandante da Defesa Aérea da Grã-Bretanha, o Marechal Roderic Hill tinha sobre os seus ombros a dupla tarefa de proteger as ilhas de qualquer novo ataque das "bombas-voadoras" e de decidir e executar as contramedidas necessárias para neutralizar as bases de lançamento dos foguetes V-2. Determinou, em primeiro lugar, a dispersão do "cinturão artilheiro" da costa sul, já que, presumivelmente, as próximas "bombas-voadoras" viriam pelo leste, distribuindo, em meados de setembro, a massa de canhões entre o estuário do Tâmisa e uma área compreendida entre Clacton, Harwick e Yarmouth. Calculava que, sendo maior a distância que a bomba ou o avião lançador teriam que percorrer, seus caças teriam maiores probabilidades de interceptação.

Mais difícil de resolver era o problema suscitado pelas V-2, que continuavam chegando às ilhas num ritmo de dois foguetes por dia. Diante deles, os sistemas de interceptação convencionais estavam de antemão condenados ao fracasso...

De momento, o mais urgente era averiguar de onde provinham os foguetes. Com esse fim determinou a duplicação do número de estações dotadas de equipamentos de radar especiais, estendendo uma densa rede entre Dover e Lowestoft; dois regimentos providos de globos de observação e estações móveis de radar foram distribuídos na costa leste da Inglaterra e no território continental conquistado pelos exércitos aliados. Todas as informações eram centralizadas por uma unidade móvel de transmissões com sede em Molinas, em comunicação com o QG de Hill em Stanmore. Logo ficou evidente que a maioria dos lançamentos eram efetuados de bosques vizinhos a Ter Horst, Eikenhorst e Raaphorst, na região de Haia. Hill pediu ao Comando de Bombardeio que esses objetivos fossem atacados maciçamente o mais cedo possível: a 14 de setembro Raaphorst, e três dias depois Eikenhorst, receberam a "visita" dos bombardeiros da RAF. Porém, como sucedera no caso da V-1, a ação não causou os efeitos desejados...

No dia 17 de setembro, tropas aerotransportadas. aliadas desceram na região Nimega-Arnhem, numa manobra de distração tendente a facilitar a travessia do baixo Rhin pelo Grupo de Exércitos do Marechal Montgomery. Ante o temor de que suas forças ficassem isoladas, o General Kammler ordenou ao Grupo Norte que batesse em retirada para Burgsteinfurt, perto de Munster, onde se encontrava seu QG, e a bateria experimental abandonou suas posições na ilha Walcheren e se transferiu para Zwolle, na Holanda central. No dia 18, uma bateria desgarrada do Grupo Norte disparou contra Londres o último foguete da primeira fase da ofensiva; nos dez dias que durou foram lançados contra Londres 35 projéteis V-2, dos quais apenas 17 caíram na região de Defesa Civil da capital. A 25 de setembro, quando o fracasso da operação aerotransportada britânica era já evidente para os alemães, o General Kammler ordenou que a bateria experimental tomasse posição em Staveren, na Frísia, para recomeçar os ataques, tendo Norwich e Ipswich como objetivos. Às 19h 19m desse dia, um foguete que caiu em Hoxne, Suffolk, marcou o começo da segunda fase da ofensiva V-1. A 30 de setembro, Kammler determinou que o Grupo Norte retornasse às suas posições anteriores, nas imediações de Haia, de onde essa unidade continuou operando até fins de março de 1945.

Porém, na tarde do mesmo dia 17, o grupo aéreo III KG 3 que antes havia cooperado na ofensiva V-1 do Coronel Wachtel, lançando "bombas-voadoras" da França, recomeçou seus ataques contra Londres. Contra a expectativa, os projéteis lançados do ar, apresentavam mais dificuldades para a interceptação que os disparados de rampas, já que voavam usualmente a menos de 500 metros do solo, o que fornecia pouca probabilidade de detecção aos radares e escasso ângulo de tiro à artilharia antiaérea.

Além disso, as bombas podiam vir, praticamente, de qualquer parte, não permitindo o estabelecimento de um "cinturão artilheiro" como o que tão bons dividendos rendera na ofensiva anterior. Hill determinou, em fins de setembro e princípios de outubro, o bombardeio dos aeródromos de Varrelbusch, Zwischenahm, Aalhorn e Handorfbei-Munster, dos quais operava o III KG 3. Todos eles foram sucessivamente atacados pelo Comando de Bombardeio britânico e pela Oitava Força Aérea americana. A ofensiva V-1 pelo ar não cessou, porque a Luftwaffe foi paulatinamente incrementando os efetivos do III KG 3 com os restos de suas esquadrilhas de bombardeiros; tampouco foi Londres o único objetivo visado por essa unidade, já que sua mobilidade lhe permitia selecionar os alvos à sua vontade. Ao anoitecer de 24 de dezembro, por exemplo, 50 aviões alemães lançaram outras tantas V-1 contra Manchester. Porém a escassez de combustível, unida às fortes perdas que essa operação tão arriscada causava nas tripulações (dos 41 aviões perdidos pelo III KG 3, calcula-se que, não menos da metade deles, se deveram a acidentes no lançamento), impôs à Luftwaffe a suspensão da ofensiva. Às 2h33m da madrugada de 14 de janeiro caía sobre o Reino Unido a última V-l, explodindo em Horsney, um subúrbio norte de Londres.

A partir de meados de janeiro até fins de fevereiro, a ofensiva contra as ilhas ficou exclusivamente entregue à V-2, que o Grupo Norte e a bateria experimental de Kammler lançavam então com uma cadência de dez foguetes diários, enquanto o Grupo Sul continuava atacando objetivos do continente, especialmente na região de Amberes (Antuérpia). Salvo algumas esporádicas e nem sempre eficazes nem oportunas intervenções do Comando de Bombardeio - dificultadas também pelo fato da Holanda ser um país aliado e era preciso evitar, o mais possível, causar baixas entre a população civil - o Marechal Hill não dispunha de outros recursos senão os caça-bombardeiros da Defesa Aérea para atacar sistematicamente as bases de lançamento. Nos dois primeiros meses de 1945 suas formações realizaram 1.143 missões contra aqueles objetivos, o que determinou uma notável diminuição do número de projéteis que chegaram a Londres nesse lapso. Pouco depois chegaram informes a Londres de que os alemães preparavam outra ofensiva com uma versão modificada da V-1, de muito maior alcance que a anterior. A 28 de fevereiro, o reconhecimento fotográfico demonstrou a presença de rampas de lançamento apontadas contra Londres em Ypenburg, perto de Haia, e em Vlaardingen, povoado vizinho de Roterdã; posteriormente, foi localizada uma terceira, em Delft. Encontraram-se, ainda, outras três rampas apontados contra Amberes (Antuérpia).

Para enfrentar essa nova ameaça, Hill redistribuiu a artilharia antiaérea, reforçando a barreira de canhões entre Sheppey e Orfordness; três esquadrões de "Mustangs" patrulhariam o mar diante dessa barreira, enquanto um esquadrão de "Meteors" cedido pela Segunda Força Tática tentaria a interceptação dos projéteis entre as defesas artilheiras e Londres. De noite, dois esquadrões de "Mosquitos" patrulhariam o mar e um de "Tempests" vigiaria atrás dos canhões. Os equipamentos de radar foram postos em estado de alerta.

Hill recomendou o bombardeio das rampas em fins de fevereiro, porém sua sugestão não foi ouvida, pois o Estado-Maior do Ar não acreditava que o inimigo estivesse em condições de operar nas semanas imediatas. Contudo, as defesas estavam preparadas e das sete bombas que chegaram à Inglaterra na madrugada de 3 de março, seis foram destruídas e apenas uma caiu em Bermonsey pouco depois das 3. Das outras dez bombas disparadas entre a noite do dia 3 e o meio-dia de 4, quatro foram destruídas, quatro caíram no campo e duas em Londres. Apesar dos freqüentes ataques da aviação aliada, a ofensiva V-1 continuou até fins de março, e a artilharia derrubou a última delas no dia 29, às 12h43m, caindo o projétil no mar, no altura de Orfordness. Nessa última fase foram lançadas 275 bombas-voadoras, das quais somente 125 chegaram a cruzar a costa inglesa; 91 foram destruídas pelas defesas e as restantes caíram em Londres.

Dois dias antes, 27 de março, às 4h45m, caía em Orpington, Kent, o último foguete V-2 dos 1.403 disparados contra a Grã-Bretanha em mais de seis meses. Deles, 517 haviam alcançado o região da defesa civil londrina, caindo 537 no campo ou outras cidades e 61 no mar, porém a uma distância que permitiu às defesas avistá-los; os restantes 288 foram disparos falhos.

Em vista da nova pausa ter todas as aparências de ser definitiva, Hill suspendeu os ataques à zona de lançamento a 3 de abril. Embora o reconhecimento aéreo, como medida de precaução tenha continuado até o dia 25 de abril, o radar cessou a vigilância no dia 13. A 2 de maio, os estados-maiores aliados concordaram em suspender todas as medidas contra as armas de longo alcance alemãs, ante informes de que elas teriam pouquíssimas probabilidades de reiniciar suas operações.

Depois de lançar seu último foguete a 27 de março, as tropas do General Krammler que operavam na região de Haia se retiraram ordenadamente para a Alemanha, por ordem do OKW, que temia que suas posições fossem conquistadas e o equipamento caísse intacto nas mãos dos Aliados. Porém o colapso do Reich estava já muito próximo, e a 9 de maio de 1945 o grosso destas forças se rendia ao 9o Exército americano.

“Paperclip”

Os técnicos militares são unânimes em afirmar que a ofensiva das "armas de represália", em que tantas esperanças haviam depositado os círculos responsáveis alemães, resultou mais espetacular que eficiente. Porém há um fato que na opinião de alguns justificava por si só o emprego da V-1 e da V-2: para conjurar a ameaça das armas secretas os Aliados tiveram que desviar milhares de saídas de seus bombardeiros e mais de 130.000 toneladas de bombas que poderiam ter utilizado contra outros objetivos mais decisivos para o curso da guerra.

A "bomba-voadora" despertou pouco interesse nos peritos; sua reduzida velocidade e pequena altura operacional, tornavam-na extremamente vulnerável à interceptação pelos caças ou pela artilharia antiaérea. O contrário, porém, aconteceu com a V-2, que muitos consideraram, num primeiro momento, como a arma da guerra do futuro.

A 2 de abril de 1945, o General Eisenhower recebia a Diretiva 1.067, na qual se instava o comandante-supremo aliado a tomar as medidas necessárias tendentes a preservar da destruição e "para capturar todos os planos, fotografias e dados relativos às novas armas alemãs". Assim teve início a "Operação Paperclip", a cargo dos serviços secretos americanos; no decurso dos anos seguintes, milhares de documentos seriam examinados minuciosamente, ao mesmo tempo em que na zona ocupada pelos Aliados ocidentais se levava o cabo uma paciente busca dos técnicos que haviam estado vinculados aos projetos da estação experimental de Peenemunde. Poucos meses depois, se encontravam trabalhando nos Estados Unidos perto de 130 cientistas alemães, alguns dos quais eram reclamados pelos tribunais de desnazificação. Centenas mais chegaram a esse país no imediato após-guerra. Em 1948, a "Operação Paperclip" resultara em colocar 1.136 técnicos e cientistas alemães e austríacos trabalhando na nascente fabricação de foguetes americana; entre eles figuravam o General Walter Dornberg e um dos seus mais jovens e brilhantes colaboradores, Werner von Braun.

Não consta de que os soviéticos tenham montado uma operação do tipo "Paperclip" ...

Embora não haja maneiro de determinar qual dos dois países foi mais eficiente em suas gestões, não será arriscado afirmar que ambos obtiveram dos seus inimigos de ontem os fundamentos sobre os quais erigiram suas indústrias espaciais.


Anexo

Bases de lançamento
Reproduzimos um relatório do Esquadrão n° 226, equipado com bombardeiros leves Mitchell, destacado para a destruição das bases para lançamento das bombas V-l
"A 4 de janeiro a unidade foi selecionada para atacar a construção de uma base de lançamento no norte da França. As bombas caíram de 1.800 a 2.300 metros, porém sem resultados satisfatórios.
"Um ataque similar foi levado a cabo a 5 de janeiro, conseguindo-se uma boa concentração na área do alvo e a operação redundou num êxito. Não se avistou nenhum avião inimigo, nem se encontrou resistência da artilharia antiaérea.
"No dia 7 de janeiro, nenhum informe sobre missão alguma podia considerar-se completo sem estas palavras familiares: construções de bases de lançamento. Neste dia, o ataque teve êxito, como foi demonstrado pelas fotografias aéreas.
"A 14 de janeiro se levou a cabo outro ataque não decisivo, porém a 5 de fevereiro o Esquadrão se mostrou interessado ao ser apontado um novo alvo: um aeródromo em Beauvais-Lille. A mudança mereceu muito boa acolhida. Contudo, a 6 de fevereiro, voltamos às “construções de bases de lançamento”. O ataque foi um fracasso devido às nuvens, obstáculo normal para o bombardeio de altitude com meios visuais.
"A 8 de fevereiro levamos a cabo dois ataques, ambos frustrados. Uma incursão realizada a 9 de fevereiro foi considerada bem sucedida, empregando-se o método “Gree” de navegação por radar.
“No dia 15 de fevereiro efetuamos outros dois ataques, um com sorte. A incursão de 25 de fevereiro determinou 50% de feridos em conseqüência do fogo antiaéreo a 9.000 pés (2.800 metros), porém sem notarmos a presença de aviões inimigos.
"O ataque de 28 de fevereiro foi de resultados indecisos.
"Durante os dias 2, 3, 4 e 28 de março foram repetidos os ataques de uma altura de 10.000 pés (3.300 metros) em média porém, em resumo, não deram grandes resultados. A aviação inimiga primava pela ausência fato que deve ser imputado à proteção dos objetivos no solo pátrio, em vista da sistemática destruição das cidades alemães empreendida pelo Comando de Bombardeio".


Uma mancha esquisita
A mancha era pequena, esquisita. Era difícil distingui-la na textura cinzenta e quadriculada da fotografia aérea. Além disso, antes não estava ali; ou, pelo menos, não foi observada nas tomadas anteriores.
Os informes começaram a chegar em abril de 1943 ao escritório de Mr. Duncan Sandys, membro do Parlamento. Eram montões de relatos e informações imprecisas, tremendamente difusas, provenientes de agentes secretos. Sandys sabia que o conteúdo de cada folha datilografada havia custado muito sangue e muito dinheiro.
Segundo os agentes secretos, o inimigo aperfeiçoava um novo tipo de arma para bombardeio a longo alcance. Analisando detidamente os dados e comparando-os com os de outras fontes de informações, Sandys e seus homens chegaram a suspeitar que a nova arma - se é que existia estava sendo experimentada em algum lugar da costa do mar Báltico. Então começaram as fotografias e apareceu a mancha esquisita. Mas não apareceu logo.
Primeiro fotografaram diversos lugares da costa do Báltico, até que Peenemunde, localizada numa ilha, se revelou como uma ampla e avançada estação experimental. As lentes das câmaras instaladas nos aviões de reconhecimento, começaram a focalizar Peenemunde cada vez com maior freqüência. Os foto-intérpretes foram amontoando dados cada vez mais precisos sobre a ilha, até que apareceu a tal mancha.
Em realidade, era, praticamente, a única novidade. E alguns intérpretes chegaram a pensar que poderia ter aparecido antes e que não fôra notada.
Submeteram-na, então, a uma cuidadosa análise. Finalmente comprovaram que, em essência, era um objeto parecido com um avião em miniatura, montado no que podia ser uma espécie de rampa metálica com trilhos. Em fotografias posteriores pôde-se apreciar que o terreno em volta estava sulcado de traços ou estrias escuras. Sandys recordava um relato de ficção científica em que presença de um foguete marciano era denunciada pelo gramado queimado nas pontas.
Também ale, anteriormente, pensara que as estrias enegrecidas da foto haviam sido provocadas por uma rajada abrasadora.
Considerando todos esses elementos, Sandys enviou um relatório aos seus superiores: "a mancha esquisita observada em uma das fotos de Peenemunde, bem pode ser um tipo de aeronave sem piloto, impulsionada a reação..." Numa conferência pronunciada em setembro de 1944, Mr. Duncan Sandys disse: "Todas nossas dúvidas se desvaneceram ao descobrir, em fins de novembro, que os alemães construíam ao longo de toda a costa francesa, desde Calais até Cherburgo, uma série de estruturas de concreto, com muitos pontos de semelhança, sem possibilidade de engano, com aquelas já descobertas na estação experimental do Báltico. Mais tarde soubemos que as instalações da França estavam, na maioria, orientadas na direção de Londres...
Pouco tempo depois, e apesar do devastador ataque aéreo sobre as rampas de lançamento, 8.000 bombas-voadoras, disparadas a uma velocidade de 500 a 600 quilômetros por hora, sulcavam o espaço. 2.300 alcançaram a área de Londres.


Operação V
Janeiro de 1944. Blizna, Polônia. Dois homens, aparentemente dois desconhecidos, se cruzam numa ruazinha do povoado. Um deles porém, leva em sua mão um pequeno pedaço de papel. Ao passar junto ao segundo desconhecido, a nota troca rapidamente de mão. Assim, uma hora mais tarde, um transmissor de rádio, oculto numa granja dos arredores, comunica a Londres, em linguagem cifrada, um episódio que acaba de ocorrer a quase duzentas milhas de Blizna...
Um grupo de aldeões poloneses trabalha nos campos que rodeiam uma pequena aldeia. Ninguém pode prever o que vai ocorrer daí a alguns minutos. E, no entanto, o inesperado acontece. De súbito, uma atroadora explosão sacode os arredores. Uma nuvem de fumaça se eleva e lentamente começa a dissipar-se. Quando a calma volta a reinar, as pequenas casas da aldeia desapareceram. Um instante mais tarde, dois caminhões carregados de soldados alemães estacionam muito perto dali. Os homens descem, e correm até ao local onde acabara de produzir-se o desastre. A uma ordem do oficial que os comanda, os soldados, pertencentes a uma unidade SS, começam apressadamente a recolher pequenos fragmentos dispersos entre as ruínas. Os aldeões, atônitos, os observam, sem compreender o que está passando. Apenas um deles olha com mais atenção e compreende. Afasta-se dali rapidamente. Instantes depois, uma nota escrita com mão nervosa, começa a passar de mão em mão até chegar às de um jovem que opera um transmissor.
Em Londres, após receber a mensagem, uma complicada rede de comandos começa a mobilizar-se e a estudar a informação. E surge então a conclusão inevitável: os alemães trabalham numa arma secreta e é necessário conhecer dados, detalhes, cifras, datas...
O movimento de Resistência polonês, mobilizando seus homens, coloca em marcha sua aparelhagem de espionagem. Agentes isolados arriscam permanentemente suas vidas numa "caça a um pedaço de metal". Patrulhas especiais, escapando aos grupos de soldados alemães, recolhem pedaços de turbocompressores, tanques de combustível e equipamento eletrônico.
Por fim, a sorte inclina a sua balança em favor dos combatentes clandestinos e um dia, um dos estranhos projéteis cai sem explodir, na margem do rio Bug, nas cercanias da aldeia de Sarmaki.
Os homens da Resistência de imediato, se entregam à tarefa de recolher o petardo. É a grande oportunidade e eles o sabem. Talvez nunca tenham outra igual.
Um grupo de poloneses, arrastando o projétil com dificuldade, o lança, finalmente, às águas do rio. Em seguida, conduzem ao local grande quantidade de gado, e fazem com que os bois atravessem o rio, turvando de tal maneira as águas que se torna muito difícil a tarefa dos alemães incumbidos da localização do engenho.
Nessa mesma noite, cautelosamente, os poloneses retiram a arma das profundezas do rio e a transportam para longe dali. Imediatamente, tratam de desarmá-la e retirar dela as peças e partes que aparentemente são vitais.
A informação, entrementes, chegou a Londres. De lá, urgentemente, os comandos solicitam que o petardo ou suas com principais peças sejam remetidas à Grã-Bretanha.
A operação, planejada cuidadosamente, consistiria no envio de um avião aliado, que aterrissaria numa pista abandonada, nas imediações do local. Ali, rapidamente, numa operação executada em segundos, o projétil ou suas partes seriam transportadas ao aparelho que, levantaria vôo, no mesmo instante. Os cálculos prévios indicavam que seis minutos seriam suficientes para a operação.
Na noite de 25 de julho de 1944, dia fixado para executar a manobra, perto de 400 membros da Resistência rodearam a pista e os bosques adjacentes, em missão de vigilância. Pouco antes da hora prevista para a aterrissagem do avião britânico, um grupo de caças alemães evoluiu sobre a pista, realizando ao mesmo tempo aterrissagens e decolagens.Para tranqüilidade e alívio dos homens que permaneciam nos arredores com as mãos crispadas na coronha das armas, os aviões alemães se afastaram tão rapidamente como haviam chegado.
A espera, então se tornou angustiosa. Existia indiscutivelmente a possibilidade de uma nova aparição dos caças alemães. E também a trágica possibilidade de um encontro entre esses caças e o avião britânico que já se encontrava em vôo, e muito perto dali. À hora marcada, um avião "Dakota" britânico sobrevoou o campo, e, à luz de precárias tochas tocou terra numa manobra impecável, aterrissando em estilo de combate. Rapidamente um grupo de poloneses subiu pela portinhola, levando consigo a documentação recolhida pelos homens da Resistência e numerosas peças vitais do petardo.
À um sinal do piloto e já com o tato ligado, as hélices foram novamente acionadas. Acelerado gradualmente, o "Dakota", no entanto, não avançou, trepidando sobre o terreno. Uma e outra vez, os motores foram parados e postos novamente em marcha. O "Dakota" porém, se mantinha imóvel. Por fim, saltando a terra, a tripulação começou um febril trabalho de reparação. Os motores rodavam a um ritmo normal; o movimento das hélices era correto; os lemes respondiam à manobra com suavidade.. . Tudo parecia estar em ordem. Alguma coisa, contudo, falhava. Por fim, o piloto deduziu repentinamente a razão que impedia a movimentação do aparelho: os freios. E eram mesmo. Os freios estavam bloqueados. Imediatamente os tubos que conduziam o óleo foram cortados e o líquido derramado. Repentinamente, liberados os freios, o avião deu uma sacudida e ficou novamente imóvel. Em seguida, o girar das hélices levantou nuvens de poeira. E com uma rápida acelerada, o avião começou a taxiar para o extremo da pista. Já em vôo, a tripulação enfrentou um novo problema. De fato, vasados os tubos da instalação hidráulica, era impossível recolher o trem de aterrissagem. A conseqüência seria uma apreciável diminuição na velocidade do aparelho. Contudo, o inconveniente foi rapidamente superado, enchendo novamente os tubos com água das rações dos tripulantes.
Assim, via Brindisi, os segredos da V-2 chegaram a Londres. O piloto do "Dakota" resumiu a experiência num relatório que deixa entrever, claramente, a têmpera dos homens que tiveram em suas mãos a operação: "Com exceção de uma ligeira agitação na pista, tudo transcorreu muito facilmente".
No momento em que o "Dakota" decolou, as patrulhas alemães se encontravam a quinhentos metros do local...


Dornberger
"Grandes massas de bombardeiros inimigos se deslocam ao norte da ilha de Rugen, com rumo desconhecido... " A voz impessoal, fria, chegou até ao Major-General Walter Dornberger através do telefone que comunicava seu QG com os postos de observação avançados. Dornberger, depois de desligar, meditou brevemente. Existia, sim, uma possibilidade de que a usina de Peenemunde, de que ele era a autoridade máxima, fosse atacada aquela noite. Porém existiam, também, muitas possibilidades de que não fosse. Dornberger decidiu então tomar as medidas de segurança de rotina, e, após assegurar-se de que cada posto de escuta e cada bateria estavam de prontidão para entrar em ação, retirou-se para descansar. Dornberger dormia profundamente quando o som inconfundível dos canhões antiaéreos o despertou, sobressaltado. Em seguida, sem solução de continuidade, surdas explosões fizeram estremecer as instalações da base. A primeira reação de Dornberger foi pensar em um exercício noturno, que havia autorizado naquele mesmo dia. Logo compreendeu que não podia se tratar de um simulacro. Era, indubitavelmente, um ataque em regra. "Senti-me transpassado - declarou Dornberger mais tarde -; a cena na qual fixei o meu olhar tinha em si uma sinistra e aterradora beleza. Eu a contemplava como se fosse, visto através de uma cortina rosada e diáfana, um incrível cenário de luzes e cores amortecidas..." Peenemunde, desmoronado pelas bombas, estava desaparecendo. Afobados golpes na porta do dormitório de Dornberger anunciaram a presença de um subordinado. Informou brevemente ao major-general: "A oficina de medições está em chamas e as de montagem e consertos estão começando a incendiar..." Dornberger, rapidamente, recobrando o sangue-frio, apanhou o microfone que estava ligado com a rede de alto-falantes da base e começou a dar suas instruções: "Atenção! Fala o Major-General Dornberger. Retirem o material da oficina de desenho, especialmente as caixas de segurança e o arquivo... " Os alto-falantes calaram repentinamente. Um petardo atingira em cheio a central de rádio e as comunicações foram silenciadas, instantaneamente. Dornberger correu entre uma chuva de bombas e escombros gritando suas ordens. O incêndio, entrementes, adquiria, minuto a minuto, uma intensidade maior. Os esforços das equipes de bombeiros e soldados eram praticamente inúteis. O ataque, intensíssimo e inesperado, arrasou grande parte da base, matou homens-chaves como o doutor Thiel e o engenheiro chefe Walter; além disso, perto de 500 operários, altamente especializados, pereceram. Em conseqüência, o programa de lançamento das V-2 sofreu um atraso de duas semanas.
Era 17 de agosto de 1943...


“O dia em que paralisaram Peenemunde”
"O ataque à estação experimental de Peenemunde deve assumir as características do mais forte e pesado ataque noturno do Comando de Bombardeio, na primeira oportunidade que as condições permitirem..." expressou o Primeiro-Ministro Winston Churchill.
Porém, até que o ataque pudesse ser levado a cabo, milhares de homens trabalharam dia e noite ou morreram para criar a efetividade necessária.
A base de Peenemunde era um longo e estreito alvo estendido sobre uma ilha do Mar Báltico. Como, mesmo nas melhores circunstâncias, seria difícil atingi-la, realizaram-se experiências num setor da costa britânica que tinha certa semelhança com a do centro experimental.
Ao mesmo tempo foram realizados vôos para precisão da rota e regulagem de tempo, como também exercícios de aproximação na melhor direção de ataque possível.
Desta forma, os erros de aproximação, que, a princípio eram de 1.000 jardas quadradas, se reduziram paulatinamente a 300, em relação à média de impacto das bombas. O plano elaborado para o ataque levava em conta que os alemães eram muito sensíveis e vulneráveis a qualquer aproximação pela costa sul do Báltico.
Muitos ataques efetuados com êxito contra Berlim, através dessa rota, confirmavam essa teoria.
Os esquadrões teriam que voar baixo, cruzando o Mar do Norte, até à costa oriental da Dinamarca, na tentativa de escapar à detecção do radar alemão, até encontrarem-se muito perto da costa; o inimigo teria que dispor apenas do tempo mínimo para alertar os caças noturnos. Às diversas tripulações foram designadas tarefas especiais. Existiam os "marcadores cegos" que, com seu radar, balizariam a área, disparando bengalas amarelas; os "marcadores visuais" que, com o auxílio das bengalas teriam que identificar e assinalar os pontos exatos a bombardear; os "reforçadores", cuja responsabilidade era manter as marcas luminosas disparando marcadores adicionais sobre os pontos previamente determinados, no transcurso do ataque. Todo o ataque era dirigido e supervisionado pelo "Bombardeiro Mestre", aproveitando o equipamento de radiotelefonia que levaria a bordo. Caso fosse necessário, e como uma tripulação mais, deveriam atuar como "marcadores adicionais" para corrigir o bombardeio e, ao mesmo tempo, dar instruções cancelando tudo o que pudesse criar confusão entre os esquadrões.
Cada demarcação devia ser bombardeada durante 15 minutos, calculando-se que a duração total do ataque seria de 45 minutos.
As 21h50m de uma clara noite de verão, o "Bombardeiro Mestre", um "Lancaster" Williams, rumou para a costa dinamarquesa. Pouco depois, os esquadrões voavam sobre a costa de Norfolk, quase a cem pés sobre o mar.
A ilha de Sylt apareceu, poucas milhas ao sul. Nessa ilha havia uma base de caças noturnos, porém nenhum deles se mexeu. Passando a costa da Jutlândia, mudaram o rumo para o leste o começaram a voar sobre numerosas ilhas pequenas, com suas granjas pintadas de branco e praias muito recortadas. J. H. Searby, comandante do "Bombardeiro Mestre", imaginou que os alemães já estivessem alertados e conhecessem o rumo das esquadrilhas através da Dinamarca. "Contudo - refletiu - um avião voando baixo sobre o mar, não é fácil distinguir, inclusive sob a luz brilhante da lua, e nós estamos bastante longe e demasiado baixo para que os grandes radares localizados em terra firme nos tenham detectado."
Marginaram Rugen pelo norte para evitar a artilharia antiaérea e começaram a corrida final para a pequena península na qual se encontrava o estabelecimento experimental alemão. Até ali tudo ia bem.
Era evidente que os alemães já os haviam detectado, porque logo o alvo começou a cobrir-se de uma névoa fina, produzida por geradores de "cortinas de fumaça". Porém haviam começado a funcionar demasiado tarde para estabelecer uma camuflagem eficaz.
Pouco antes da Hora "H", o primeiro grupo de indicadores amarelos caía na área dos alojamentos, onde viviam os cientistas e os técnicos, e poucos segundos depois, um indicador vermelho aparecia, brilhando entre os outros. Era o marcador do ponto a bombardear.
Pontualmente às 2 da madrugada, a força principal iniciou o bombardeio pesado. Pouco a pouco, um moderado grupo de baterias antiaéreas entrou em ação. Os alvos atingidos começaram a espalhar suas chamas. Enquanto isso, a cortina de fumaça ia se tornando cada vez mais densa, o fogo da artilharia mais forte, e os caças alemães começavam a chegar em grande quantidade. Entrementes, um grande incêndio tornou-se claramente visível na área do objetivo, embora toda a sua intensidade não pudesse ser inteiramente observada devido à fumaça que desprendiam os bosques próximos, ao arderem. Searby, a bordo do "Bombardeiro Mestre" sentia-se feliz com o êxito do ataque, preocupado embora, em alguns momentos, quando as bengalas indicadoras tornavam-se muito espaçadas, e ansioso, quando os bombardeiros soltavam cargas de bombas longe do objetivo a atingir. Além disso, havia os aviões britânicos que se precipitavam à terra, envoltos em chamas, enquanto tudo estremecia com a detonação das bombas e granadas da artilharia antiaérea. Por fim, preocupava-o também a segurança da tripulação e do seu próprio "Lancaster" que era freqüentemente abalado pelas descargas.
O preço fôra alto: quarenta bombardeiros ingleses destruídos, porém, como dizia o piloto Fitzgerald, com visível otimismo: "Não será necessária outra visita do Comando de Bombardeio a Peenemunde".


"Camicase alemão"
Tudo não passou de um simples projeto... Em parte, porque embora a idéia do "Camicase" provocasse temor e até admiração entre europeus e americanos, somente um oriental, formado desde criança numa sublimação quase total do materialismo, seria capaz de um sacrifício semelhante. Pilotar um avião-suicida era como "jogar roleta russa" com todas as balas...
Nos últimos dias do ocaso alemão houve homens que aceitaram o sacrifício voluntário e que se declararam dispostos a convencer outros. A idéia foi afastada sucessivamente por Milch e até pelo próprio Hitler. Contudo, os defensores dessa teoria trabalharam com habilidade e conseguiram o apoio do Coronel-General von Greim. Inclusive o próprio General Koller chegou à conclusão de que "um suicídio assim podia ser útil, com a condição de que tivesse como resultado a destruição de uma grande unidade", embora, pessoalmente, continuasse sendo contrário aos princípios do projeto.
Posteriormente, Hitler, apesar de sua negativa inicial, consentiu em que se iniciassem os preparativos. A teoria era meter um homem dentro de uma V-1. Milch fez as seguintes observações: tanto o tamanho como a velocidade da V-1 eram relativamente pequenos; pretender meter um homem no seu interior, seria reduzir sua carga explosiva e sua velocidade; o que queria dizer que, na maioria dos casos, o "piloto-suicida" morreria antes de atingir o alvo, vítima dos caças interceptadores. Certo dia, chegou ao quartel de Milch o oficial da SS Otto Skorzeny. Entrou alegando possuir plenos poderes para realizar essas experiências, e que sua não realização provocaria a ira do Führer. Milch, então, apesar das suas idéias, deu ordem de transformar a V-1 para receber um piloto. Na base experimental de Rechlin, vários engenheiros e uma mulher, Hanna Reitscha, começaram os testes.
As poucas experiências que chegaram a realizar provocaram sérias lesões na coluna vertebral dos pilotos de provas. Ao que parece produziam-se certas vibrações que ocasionavam as tais lesões nos tripulantes; posteriormente houve uma tentativa para reduzi-las, alargando a fuselagem. Porém, enquanto isso, a guerra terminava e os que se haviam ofertado para tripular o "vento divino alemão" devem ter desconfiado que o sacrifício seria inútil. Pouco a pouco o projeto foi abandonado até cair no anedótico. Um comentarista alemão declarou, ironicamente, que "foi a única tentativa para humanizar a V-1".


Werner Von Braun
"A utilidade de uma descoberta não pode ser apreciada claramente, até que essa descoberta seja mesmo realizada. Ninguém pode imaginar o que o programa espacial pode causar à humanidade, assim como tampouco Isabel, a Católica, podia imaginar qual seria o resultado da viagem de Colombo".
Essas palavras pertencem a Werner von Braun, o principal e mais conhecido cientista do mundo ocidental. Elas refletem claramente a sólida convicção que ele possui em relação à extraordinária importância dos seus trabalhos, e principalmente, de suas conseqüências. Estas (o homem na Lua e, eventualmente, nos planetas vizinhos) já quase tornadas realidade, são de uma dimensão óbvia. As possibilidades de todos os tipos que oferecerão ao homem a conquista do espaço se estendem a todos os campos da ciência.
Desde os seus primeiros anos, Werner von Braun sentiu o apelo do espaço. Depois de uma infância em que devorou livros e artigos discutindo a possibilidade da viagem do homem ao espaço exterior, chegou à adolescência disposto a dedicar sua vida a tal evento.
Aos dezoito anos, sendo já estudante adiantado, elaborou seus primeiros foguetes, artefatos rudimentares, que precederam os gigantescos projéteis que atualmente projeta e constrói.
Ao chegar aos vinte anos, seu prestígio começa a dar frutos: é nomeado chefe de estudos de projéteis-foguetes do exército alemão. Tinha 32 anos quando a primeira V-2 sulcou o espaço. A guerra, nesse mesmo instante; mudou de dimensão. A nova arma que se incorporava ao arsenal bélico mundial alteraria fundamentalmente os princípios clássicos da guerra e obrigaria a criação de novas técnicas e novos princípios. Na sua aparição, as bombas auto-impulsionadas não variaram o curso da contenda. Elementos alheios à bomba influíram com tal objetivo; contudo, ninguém duvidava que uma nova era se abria diante do homem; uma nova era que revolucionaria, não somente a guerra, mas também a paz. De fato, aquela V-2 que acabava de sulcar o espaço com uma poderosa carga explosiva, seria a origem dos gigantescos "Saturno V" da atualidade.
Posteriormente à guerra, radicado já em sua pátria adotiva, os Estados Unidos, von Braun dedicou todos os seus esforços para manter esse país num plano destacado na corrida pela conquista do espaço.
Em 1957, na noite em que a Rússia colocou em órbita 9 seu primeiro "Sputnik", ceando com Neil McElroy, Secretário da Defesa, pediu-lhe liberdade de ação durante sessenta dias; esse era o prazo que necessitava, declarou, "para colocar em órbita um satélite americano". Von Braun esteve a um passo de cumprir sua promessa, e se se levar em conta as incríveis dificuldades de todos os tipos que teve que vencer, pode-se afirmar que a cumpriu; de fato, oitenta e quatro dias depois daquela noite, os Estados Unidos colocaram em órbita seu primeiro satélite. Prosseguiu, depois, incansavelmente em busca do ideal que preencheu seus sonhos de adolescente: a conquista do espaço para o Homem...

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